sábado, 27 de julho de 2013

XANGÔ KAMUCÁ - O REI DA NAÇÃO CABINDA


Ao se citar o nome de Xangô Kamucá, imediatamente nosso pensamento migra para a nação de Cabinda, e não sem motivo, visto que toda a raiz religiosa desta bacia é proveniente do Babalorixá Waldemar Antônio do Santos ou Waldemar de Xangô Agodô Kamucá Baruálofina.  Xangô Kamucá é uma “qualidade” de Xangô cultuado apenas na nação de Cabinda, sendo considerado e intitulado rei desta raiz juntamente com seu filho Waldemar, em virtude de todos os cultores desta serem originários de sua feitura.
Nos dias de festa, nos ilês de Cabinda, os cânticos dedicados ao Orixá Xangô iniciam por Kamucá. Neste momento, em forma de respeito e homenagem, os descendentes ajoelham-se para reverenciar sua raiz religiosa.
Muito se especula em torno dos assuntos relacionados a Xangô Kamucá, como o dizer-se que o assentamento deste Orixá deveria ser feito junto do Ighbalé (casa dos Eguns), ou até mesmo que este Orixá “responderia” no cemitério e, em virtude disto, a feitura do Orí não aconteceria. Pois bem, como ressaltei no inicio do parágrafo, não passam de especulações sem nenhum fundamento, surgidas da falta de informação. Existe uma qualidade de Xangô que realmente responde na lomba (proximidades do cemitério), mais especificamente na parte externa deste, chamado Xangô Olofiná. Pela sonância “Olofiná” ser muito semelhante ao nome de Xangô Kamucá Baruálofina, pode estar ai o motivo da confusão.
Com relação ao assentamento de Xangô Kamucá (que não é praticado) dever ser feito junto ao Ighbalé, trata-se de afirmativa totalmente infundada. Este equívoco pode ter-se gerado em decorrência das obrigações praticadas no Ighbalé terem como função primordial homenagear os antepassados e, quando falamos em Kamucá, estamos direcionando para a raiz mais profunda da ancestralidade dentro dos ilês cultores da Cabinda. Ancestralidade de fundamentos desta nação é um tema; culto aos antepassados (Eguns, Egunguns e Egunguns Babá) é algo totalmente diferente.
É de conhecimento de todos os sacerdotes dos antigos fundamentos religiosos, tanto na Cabinda como nas outras nações afro-riograndenses, que o assentamento de Kamucá não é praticado dentro do seu culto, pois sendo considerado o Rei da nação de Cabinda, respeita-se a ancestralidade e a importância deste Orixá. Caso se consulte o oráculo africano (búzios) e o consulente venha a ter como Eledá (Orixá de frente) Xangô Kamucá, no momento de sua feitura troca-se a qualidade de Xangô para outro Xangô Agodô. Não creiam que se estará, procedendo assim, “trocando” a cabeça do filho, mas apenas se adaptando a feitura para que o fundamento continue intacto, assim como se faz nos casos de pessoas que trazem Ogum Avagã como Orixá de cabeça.
Infelizmente, nos dias atuais, as feituras de Xangô Kamucá têm sido constatadas, e de maneira bastante corriqueira, com pessoas que se intitulam “os filhos do Rei”. A culpa nestes casos não recai sobre o iniciado, e sim sobre o sacerdote, responsável direto pela feitura, que com este procedimento literalmente “implode” os fundamentos religiosos que deveriam ser mantidos e seguidos. Questiono seriamente este procedimento, se estarão em busca de promoção pessoal, vaidade ou, o que é pior ainda, desconhecimento total dos fundamentos ancestrais, o que definitivamente não os habilita ao serviço do sacerdócio africano. Reitero aqui: não há assentamento possível para Xangô Kamucá, em nenhuma nação e, principalmente, dentro do culto de Cabinda.
Acredito que a deturpação dos fundamentos antigos, não só dentro da Cabinda, mas também nas demais nações afro-riograndenses e afro-brasileiras, pois também se assistem absurdos dentro do Candomblé, e isto é fato, está se dando pela falta de humildade de sacerdotes em buscar o conhecimento através de certas “enciclopédias ambulantes” que temos dentro de nossos cultos. Tais pontos de referência são babalorixás e yalorixás, a maioria das vezes nascidos e vivenciando até hoje os cultos conforme os fundamentos tradicionais. O comércio religioso também contribui para isso, pois a prática da venda de aprontamentos hoje é comum, transformando o que antes era recebido com merecimento, esforço e noites repetidas de muito trabalho, em algo adquirido a peso de ouro, como se fosse uma franquia de negócios.
Mas com toda a certeza a decadência maior dos cultos afro está se dando pelas tais giras de Exu, o que eu não chamaria sequer de culto, por se tratarem de festas populares, regadas a muita bebida alcoólica, mistificação e orgia. Esclareço que sou frontalmente contra esta prática, que além de macular a imagem dos cultos religiosos de matriz africana, deturpa o fundamento do Exu, tanto dentro das nações afro-riograndenses, quanto nas práticas da Umbanda, religião que, apesar de não cultuar, mantenho dentro de grande respeito. Sobre minha opinião a respeito, tratarei em texto futuro.
Finalizando, esclareço que Xangô Kamucá é e sempre será considerado o Rei da Cabinda, o Orixá símbolo deste culto, de onde provêm todas as raízes de nossa nação, nosso fundamento maior, sendo o culto a Egun ou assentamento de Ighbalé algo totalmente diferente e alheio àquele. Que Xangô Kamucá Baruálofina oriente e abençoe sempre aos seus sinceros descendentes.

Um comentário: