quinta-feira, 7 de março de 2013

DICIONÁRIO YORUBA

Letra AÀàbò - metade
Ààfin - Palácio, residência de um rei (Oba)
Àáké - machado
Ààrè - doença, fadiga, cansaço
Ààyè - vida
Aba - escada de mão
Abánigbèro - conselheiro, aquele que aconselha, um sábio mais velho
Abanijé - difamador
Abaya - rainha mãe
Abélà - vela
Abomalè - aquele que cultua os ancestrais (egúngún)
Abòrisà - aquele que cultua/adora os orixás
Aboyún - mulher grávida
Abuku - desgraça
Adèbo - pessoa que prepara a comida com os animais oferecidos em sacrifício de acordo com as regras religiosas
A dúpé - agradecemos a você
Afará - oyin - fovo de mel
Àfomó - doença infecciosa, trazida pelo Orixá das doenças infecciosas (Babaluaiyé; Xapanã)
Àgàn - mulher estéril
Agbádá - vestes sacerdotais
Àgbàdo - milho, sagrado para o Orixá Èsù (Bará)
Àgbaiyé - o mundo inteiro
Àgbon - coco
Àìsàn - doença
Áike - machado
Aláàfin - título tradicional para o rei de Oyó

Letra BBáàlè - chefe de um povoado, com menos status que um Oba
Bàbà - milho da Guiné
Babagba - homem velho, geralmente o avô
Báde - caçar em grupo
Bájà - lutar, brigar
Balògun - chefe da sociedade dos guerreiros
Bàlagà - entrar na maturidade
Barapetu - grande, uma pessoa de distinção
Burú - ruim, negativo, destrutivo

Letra DDáàdáà - bom ou bonito
Dabòbò - proteger, fornecer proteção
Dàgbá - envelhecer, ficar velho
Dàgalágbà - tornar-se um homem adulto
Dalè - quebrar uma promessa
Dára - bom, ser bom
Dáradára - muito bom, tudo certo
Délade - coroar um rei
Dele - chegar em casa
Dídá - ara - boa saúde
Dígí - espelho
Dùbúlè - deitar

Letra EÉèdì - encanto, feitiço
Éègun - ossos, ossos humanos
Efi - fumar
Égbéé - amuleto de proteção para o Orixá (Ògún)
Egbò - chaga, ferida
Égún - espírito dos ancestrais
Eji - chuva
Ejò - cobra
Èké - pessoa mentirosa, falsa, fraudulenta
Ékú - rato
Elégbògi - curandeiro que usa ervas
Elésù - pessoa que adora o mensageiro Èsú
Elu - estranho
Enìní - inimigo
Enini - orvalho da manhã
Erinká - milho na espiga
Erú - carregamento, fardo
Erupe - sujo
Ewé - folha de planta
Ewu - perigo
Ewú - cabelo grisalho, sinal de dignidade
Ewure - cabra
Èdán àrá - pedra de raio, sagrada para o Orixá Sàngó
Edùn - machado
Efó - vegetais verdes
Èfóri - dor de cabeça
Ègbé - comunidade de pessoas com o mesmo propósito
Eiye - pássaro
Èmí - respiração, também se refere a alma humana
Enyin - você
Èrúbo - compromisso de fazer uma oferenda aos Orixás
Èwòn - corrente

Letra FFaiya - encantar, seduzir
Fári - cortar o cabelo com lâmina
Fe - há muito tempo
Fèrè - flauta
Fé - amar
Féniyawo - casar
Fijúbà - respeitar
Fòiya - estar com medo, amedrontado
Fowólérán - agir com paciência
Funfun - branco
Fúnwiniwini - garoar
Fúnlèfólorun - dar liberdade, agir de maneira certa
Fúù - o som feito pelo vento

Letra GGáàri - refeição feita de farinha de mandioca
Gala - veado, alce
Géndé - homem forte
Gèlédé - sociedade dedicada a homenagear os ancestrais
Góòlù - ouro
Gòmbó - cicatriz; marca no rosto que indica linhagem
Gun - subir
Gùn - pessoa alta
Gunnugun - abutre, urubu
Gbabe - esquecer
Gbada - faca com lâmina grande
Gbàdúrà - rezar
Gbagbo - acreditar
Gbaguda - farinha de mandioca
Gbajumo - cavalheiro; homem gentil
Gbé - levantar
Gbédè - agir de maneira inteligente
Gbérè - cumprimentos
Gbese - dívida
Gbéyàwó - casar
Gbóju - bravo
Gbórín - grande
Gbúròó - ouvir

Letra HHà - expressão de prazer
Halè - amedrontar, ameaçar, intimidar
He - pegar, apanhar
Hó - ferver
Hun - tecer, trançar
Hùwà - comportar-se

Letra IÌbà - homenagem em respeito aos Orixás
Ìbamolè - forças espirituais que são merecedoras de respeito
Ibà pójúpójú - febre muito alta
Ibòòji - sombra
Ibúlè - àrun - leito de doença
Ibúlè - ikú - leito de morte
Ibùsùn òkú - cemitério
Ìdáwò - consulente de adivinhação
Ifáiyable - visão mística
Ìfeseji - perdão
Iga - quintal de um ancião
Ìgbà - história
Igbado - milho
Ìgbàlè - cemitério
Ìgbín - lesma, caracol
Igbó - floresta
Igbódù Òrìsà - local sagrado para iniciar uma pessoa nos mistérios dos Orixás
Ìgboro - rua, estrada
Igi - òpe - palmeira
Ihò - buraco
Ija - luta
Ikú - morte
Ikùn - estômago
Ilà - marcas faciais
Ìlù - tambor
Ìmale - respeito ao ancestral
Ìmáwò - ara - encarnação, estado de reencarnação
Ìmólè - forças da natureza (Òrìsà)
Imo - ope - folhas de palmeira
Ìpàdé - encontro
Ipin - guardião
Ìràwò - estrelas
Ìtefá - iniciado nos fundamentos de Ifá
Ito - urina
Ìyáláwo - divindade feminina, mãe dos mistérios
Ìyálè - esposa mais velha em uma família polígama
Imonamona - raio
Iná - fogo
Ìpelé - pequena cicatriz facial que indica a linhagem familiar
Ìpitan - tradição oral
Ìrawò - estrelas
Ìrésì - arroz
Ìrèmòjé - cânticos do funeral dos caçadores
Irin - ferro, sagrado para o Orixá Ògún
Irun - cabelo
Irúnmòle - forças da natureza (Òrìsà)
Ìsàlè - órgãos reprodutores
Ise - trabalho
Ìségún - reverência aos antepassados
Isinkú - funeral
Ìtan - história, lenda, mitologia
Ìtan - àtowodowo - lenda tradicional, história sobre os orixás
Ìwà - àgba - caráter de um ancião
Ìwà - édá - natureza
Iwóòrò - ouro
Ìyá - mãe
Ìyá - àgan - mulher mais velha, (anciã), dentro da sociedade dos médiuns ancestrais
Ìyáàgbà - avóÌyáláwo - divindade de ifá feminina, significa: " mãe dos mistérios ".
ÌYálorísà - mulher iniciada nos mistérios das forças da natureza (Òrìsà).
Ìyálè - esposa mais velha em uma família polígama. 
Iyekan - ancestrais do pai

Letra JJade - sair
Jádeogun - preparar o combate
Jádi - atacar
Je - comer
Je ewo - má sorte que vem como o resultado de uma violação de tabu/regra
Jéjé - rogar uma praga
Jeun - comer
Jéwó - confessar
Jé - acordar
Jigi - espelho
Jije - comer
Jikelewi - borrifar
Joko - sentar
Jóná - estar em chamas
Jóò - desculpar, perdoar
Jowo - grande favor
Juba - rezas, pedido

Letra KKàdárà - destino
Kábiyèsí - cumprimento de respeito a um rei (oba)
Kábíyèsìlè - expressão de respeito a um chefe ou mais velho
K'àgò - pedir permissão para entrar em uma casa
Kalè - sentar
Kaná - estar em chamas
Kárò - bom dia
Kárùn - ficar doente
Kàwe - ler
Káwó - saudação, aclamação
Ké - cortar
Kedere - clarear, esclarecer
Kékeré - pequeno
Kéré - ser pequeno
Kéhìndé - o segundo gêmeo a nascer
Kíkún - mortal
Kiniun - leão
Kórira - odiar
Kókóró - chave; sagrado para o mensageiro Exu (Èsú)
Kòla - noz de cola amarga. Sagrada para a maioria dos Orixás
Korin - cantar
Ku - morrer
Kunle - ajoelhar no chão como um gesto de respeito, tanto para um local sagrado como para uma pessoa mais velha
Kunrin - cantar
Kurumu - redondo

Letra LLá - sonhar
Lábelè - secretamente
Láikú - imortal
Làí - làí - o começo (considerar tempo)
Láí - láí - para sempre
Làlóju - esclarecer, iluminar
Létòl'tò - segmentos de um ritual
Léwà - ser bonito
Lódè - do lado de fora
Lodê oni - no presente
Lókun - forte
Lóni - hoje
Lówò - ser rico, ter abundância
Lókan - bravo
Lukoun - pênis

Letra MMa - de fato, realmente
Maga - sacerdote chefe do Orixá Xangô (Sàngó)
Màlúù - boi
Màrìwò - folhas de palmeira
Méjì - dois
Mérin - quatro
Mérìndílógún - dezesseis (16), também usado para referir a um sistema de adivinhação usado pelos iniciados de Orixás que está baseado nos primeiros dezesseis versos da divindade Ifá (Odù)
Meta - três
Méwà - dez
Mi - engolir, respirar
Mímo - sagrado, divino
Míràn - outro
Mo - eu
Mojú - saber, conhecer
Móoru - tempo quente
Mu - beber

Letra NNá - primeiro de todos
Nba - juntar-se
Nfe - amar
Nje - bem
Njo - dançar
Ni - dizer, ser, alguém, aquele, depende do contexto
Nígbàtí - quando
Nikan - sozinho
Níle - em casa
Nko - não
Nlá - grande
Nlo - indo
Nmu - bebendo
Nrin - caminhando
Nro - pensando
Nyín - você

Letra OO - ele, ela, isto
Obì - noz de cola, usado num sistema simplificado de adivinhação
Obí - sexo feminino
Ogìnrin - mulher
Óbo - vagina
Obuko - bode
Òde - do lado de fora
Òde ayé - o mundo todo
Odideé - papagaio
Odò - rio
Òdodo - justiça
Odukun - batata doce
Òfin - lei, direito
Ogbe - crista de galo
Ogbo ato - ficar velho, vida longa
Ogboni - sociedade de homens anciões que adoram o Orixá Onile
Ògèdè - encanto, feitiçaria
Ojise - mensageiros
Òjò - chuva
Òjòlá - jibóia
Ojú - olho ou face, dependendo do contexto
Ojù àse - força nos olhos
Ojugbede - sacerdote chefe do Orixá do ferro Ògún em Ilé Ifè
Ojubona - professor
Ojú - óòri - sepultura, túmulo
Ojú ònà - caminho, estrada
Oku - cadáver, defunto
Okun - o oceano
Olé - ladrão
Olórí - chefe
Olosa - Orixá da laguna
Oluwo - chefe adivinhador de Ifá do conselho masculino dos anciãos 
Omi - água
Omi ayé - as águas da terra
Omi - tútù - água fria
Omira - sangue menstrual
Ònà - estrada, caminho
Oníbàárà - cliente
Oníbode - porteiro
Onílé - guarda da casa
Oni're - nome em louvor para o Orixá do ferro Ogun, que significa "chefe da cidade de Ire"
Onísé - trabalhador
Òòsà - o mesmo que Orixá
Òòsàoko - Orixá da fazenda
Opèlé - corrente usada pela divindade Ifá, significa: " enigma da palmeira "
Òpin ìsìn - o fim do ritual
Òpópó - rua
Òpùrò - mentiroso
Orílè - nome de uma nação
Òrisà bi - esposa de Orungan
Òtitó - verdade
Otu - sacerdote que faz oferendas em nome do Rei (Oba)
Owó - dinheiro
Oyin - mel
Oba obìnrin - Rainha mãe
Ode - caçador
Òdúndún - erva medicinal
Ofà - flecha
Ofò - feitiçaria
Oka - cobra
Okòn - coração
Olona - nome em louvor ao Orixá Ogun que significa: "proprietário da estrada"
Olòwò - sábio mais velho
Omo - criança
Omodé - criança jovem
Ònà - estrada
Òòni - O Rei da nação Yorubá
Ope - palmeira
Osán - fruta
Òsányìn - Orixá das ervas e dos medicamentos
Òsè - semana ritual de quatro dias
Òsóòsì - orixá da caça

Letra PPàdé - encontrar
Pákí - farinha de mandioca
Pákórò - ritual noturno nos funerais
Paré - desaparecer, ser destruído
Pari - completar
Pariwo - gritar
Pèlé - marcas na face. Caracteriza as famílias
Peleke - aumentar
Pín - dividir, repartir
Pitan - contar historias
Pòòkò - copo feito de uma casca de coco
Pupa - vermelho
Putu - bom

Letra RRà - comprar
Rá - engatinhar
Rári - rapar a cabeça, o primeiro degrau da iniciação
Rèrè - coisas boas, boa fortuna
Réin - rir
Riri - tremer de medo
Ròjo - chover
Run - perecer, sucumbir

Letra SSáà - estação, determinado espaço de tempo
Sàn - estar bem
Sánmò - céu
Sanra - estar gordo
Sè - cozinhar
Sééré - chocalho, sagrado para o Orixá Sàngó
Sinsin - descansar
So - amarrar
Sódé - fora
Sòrò - falar
Sun - dormir
Sunkun - chorar
Sánku - morte prematura
Ségègé - tirar a sorte, fundição de certas formas de adivinhação
Sèké - mentir
Sòkoto - calças
Sòtito - ter fé

Letra TTà - vender
Táìwo - o primeiro gêmeo a nascer
Táláká - pessoa pobre
Téfá - iniciação Ifá
Tanná - acender a luz
Tara - pequena pedra
Te - estabelecer
Tè - pressionar
Té - espalhar
Telé - seguir
Tímótímó - pequeno
Tìnùtìnù - sincero
Titi - até
Tóbi ode - caçar
Túndé - renascer
Tutu - frio

Letra WWà - ser
Wádi - fazer perguntas
Wejeweje - coisas boas
Were - jovem
Wo - relaxar
Wo'gun mérin - os quatro cantos do mundo, as quatro direções
Wolé - entrar
Woléwòdè - entrar e sair
Won - então
Wípé - dizer algo
Wó - o qual
Wòran - assistir
Wodi - investigar

Letra YYá - inundar
Yà - virar para o lado
Yalayala - gavião, rápido, veloz
Yàn - escolher
Yanran - bom
Yara - quatro
Yára - ser rápido
Yesi - quem
Yeye - mãe
Yewere - sem valor, indigno
Yèyé - bobagem
Yi - isto
Yibi - grandeza
Yio - desejo
Yo - aparecer

quarta-feira, 6 de março de 2013

UM PRÍNCIPE MOROU NO RIO GRANDE DO SUL

Envolto numa auréola de nobreza autêntica viveu muitos anos em nossa Capital gaúcha uma figura estranha e original que conservou todos os seus hábitos de origem e todos os ritos extravagantes de sua seita negra...

"São João Batista de Ajudá" era uma fortaleza portuguesa no Daomé. A feitoria de São João Batista de Ajudá estava situada a 5 Km da costa Africana, de Leste ou "Papós", entre os rios da Lagoa e do Volta, tendo sido descoberta pelos portugueses, quando navegavam na costa da Guiné. Era a capital do Antigo reino do Daomé, edificado numa vasta planície outrora muito povoada de cristãos negros. O rei D. Pedro II ( de Portugal) mandou construir a referida fortaleza para proteger o importante comércio que então os portugueses faziam na Costa da Mina .

A Costa da Mina era um território à beira do Oceano Atlântico no golfo da Guiné. Foi ocupado pelos ingleses que ali estabeleceram importantes feitorias, que passaram que a ser defendidas pelas guarnições das fortalezas antes pertencentes a Portugal, entre as quais as de São João Batista de Ajudá.

Daomé faz fronteira de um lado com a Nigéria, que é o maior país da África atual, e do outro, com Togo, possessão alemã antes da I Guerra Mundial, este velho reino africano no começo foi colônia de vários países que se estabeleceram ao longo de seu território à margem do Atlântico, mas em 1876 a Grã-Bretanha terminou a ação que iniciara alguns anos antes comprando a parte dos demais ocupantes, tornando, então, a Costa do Ouro inteiramente de propriedade dos ingleses, os quais também tiveram de entrar em acordo com os reis e príncipes negros que governavam o gentio. Desta determinação britânica resultou a deportação de um rei africano, que somente em 1934 teve autorização para voltar a fim de passar sossegadamente o resto de seus dias na terra natal. Com outros governantes foram feitos acordos financeiros por eles aceitos a fim de evitar o massacre do seu povo. Entre estes estava o príncipe de São João Batista de Ajudá que deixou sua terra na Costa da Mina em 1862 quando tinha 31 anos de idade.

Ninguém sabe como e em que circunstâncias este príncipe governante deixou o porto de Ajudá, que era perto da Costa do Ouro (hoje República de Gana), onde, em algumas décadas anteriores, funcionava um dos principais locais de embarque de escravos para o Brasil, mas o certo é que ele partiu ante a promessa solene dos ingleses de que seu povo não sofreria o que haviam sofrido os grupos vizinhos ante a violência dos alemães e franceses. 

Os portugueses antes poderosos tinham se contentado com uma parte do Guiné e com as Ilhas de São Tomé e Príncipe cedendo as suas fortalezas. As condições para que o Príncipe de Ajudá não oferecesse qualquer resistência aos invasores, além pelo respeito à vida dos seus súditos, era a de que se exilasse e jamais voltasse aos seus domínios. E, como parte do convênio, a Grã-Bretanha se comprometia a fornecer-lhe uma subvenção mensal paga em qualquer parte do mundo onde estivesse, por intermédio dos seus representantes consulares.

Por qual motivo o exilado escolheu o Brasil, não se sabe. Talvez por haver aqui grande número de descendentes dos escravos nativos da Costa da Mina - os chamados "pretos-mina" - ou outra qualquer razão; sua chegada a nossa terra foi assinada com acontecida em 1864, dois anos depois de ter deixado Ajudá. Inicialmente fixou-se em Rio Grande mais tarde foi para o interior de Bagé onde ficou conhecido por manter viva a tradição religiosa do seu povo - com a prática do que agora se conhece como Batuque - além de mostrar conhecimentos das propriedades curativas da nossa flora medicinal, atendendo muita gente doente que o procurava, tratando de minorar-lhes os males por meio de ervas e rezas dos ritos africanos.

De Bagé mudou-se para Porto Alegre onde chegou em 1901 com 70 anos de idade. Foi morar na Rua Lopo Gonçalves, nº498, cujos fundos davam para a Rua dos Venezianos (hoje Joaquim Nabuco), mas logo que o príncipe que havia adotado o nome brasileiro de Custódio Joaquim de Almeida - ali se instalou, passou a rua a ser preferida pela gente de cor que procurava com isso acercar-se do homem que incontestavelmente, era um líder de sua raça.

O príncipe Custódio - como então era chamado - iniciou-se ali uma nova etapa de sua aventurosa vida, cercando-se em Porto Alegre de um aparato digno de um verdadeiro fidalgo. A família do príncipe de Ajudá aos poucos foi crescendo e não demorou a atingir o número de 26 pessoas, sem contar os empregados em boa quantidade.

Os fundos da casa onde morava - com saída à Rua dos Venezianos (Joaquim Nabuco, hoje) - servia para a sua coudelaria, pois possuía nada menos do que nove cavalos de raça - alguns importados da Inglaterra - os quais todos os domingos disputavam corridas. Para manter e cuidar esses animais havia um grupo selecionado de empregados, jóqueis, etc., sob a supervisão direta do príncipe, que se classificava como "tratador".

O príncipe Custódio tinha oito filhos, três homens e cinco mulheres (atualmente ainda estão vivos um homem - Dionísio Joaquim Almeida, funcionário aposentado da EBCT - em Porto Alegre, e duas senhoras, uma residindo no Rio de Janeiro e outra em São Paulo) e para esses oito filhos, quando pequenos, mantinha quatro empregados, um para cada dois. 

Seus conhecimentos de idioma português não eram muito corretos, porém podia expressar-se fluentemente em inglês e francês, além de falar ainda vários dialetos das tribos africanas que havia governado.

As festas a que levava a efeito periodicamente em sua casa - notadamente na data de seu aniversário - duravam três dias com a casa sempre cheia de gente, da manhã à noite, se comia e se bebia do bom e do melhor ao som dos tambores africanos que batucavam sem parar naquelas setenta e duas horas. E nesses dias o príncipe recebia a visita da gente mais ilustre da cidade, inclusive do presidente do Estado, Borges de Medeiros que, conhecendo a ascendência daquele homem sobre a população de cor, ia felicitá-lo, talvez mais por motivos políticos do que por outra coisa. Naquelas festividades era certo o comparecimento de senhoras e cavalheiros da melhor sociedade porto-alegrense, além de capitães da indústria e comércio que dele precisavam o apoio para o perigo de greves e outras imposições. As mais finas bebidas eram importadas diretamente da Europa, especialmente para aquelas ocasiões especiais, embora elas nunca faltassem a mesas do príncipe exilado.

A casa do príncipe vivia sempre lotada de gente, de visitantes e de pessoas que ele encontrava nas ruas e lhe pediam auxílio. Mandava essas pessoas embarcarem na carruagem em que estivesse e as levava para a sua residência onde sempre havia lugar para mais um . Todos ali ficavam até que quisessem ir embora. Entre os que viveram muito tempo junto ao príncipe estava um branco, desdente de alemães oriundo de São Sebastião do Caí, que tinha feito estudos de medicina e dessa maneira o auxiliava no atendimento aos doentes que continuamente o procuravam em busca dos remédios e dos "trabalhos" do chefe africano exilado.

Para os rigores do inverno o príncipe Custódio adotou o poncho gaúcho, embora não dispensasse o gorro que marcava a sua personalidade, não o deixando nem quando visitava o Palácio Piratini onde sempre era bem vindo e onde havia ordens superiores de bom atendimento, e onde ele muitas vezes usava o seu prestígio para conseguir alguma coisa que lhe fosse solicitada por qualquer membro de sua comunidade.

Durante todos os anos em que viveu em Porto Alegre - 31 ao todo - nunca manteve correspondência ostensiva com parentes ou amigos deixados em terras africanas. De lá recebia informações e daqui envia notícias suas em mãos por intermédio de marítimos que tripulavam vapores vindos à nossa metrópole transportando e levando mercadorias. Também nunca se soube o teor dessas correspondências. De incentivo ao seu povo para uma possível rebelião não era. Pois ele sabia ser isso humanamente impossível. Além disso, a Inglaterra, em todo o longo período do seu exílio, sempre cumpriu religiosamente o que fora estipulado. Mensalmente o consulado britânico local entregava-lhe um saquinho cheio de libras esterlinas, cuja troca em mil-réis servia para manter a pequena corte da Rua Lopo, a família numerosa, os agregados, os empregados, e ainda serviam àqueles que o procuravam nos momentos de aperturas financeiras. 

No verão, em janeiro, o programa era conhecido. Ia todo mundo para a casa de propriedade de Custódio Joaquim de Almeida, na Praia de Cidreira. A viagem para o velho balneário era qualquer coisa de sensacional e folclórico. Embora fosse dono de carruagem e tivesse dinheiro para alugar quantas diligências quisesse, o príncipe gostava de viajar em carretas puxadas por bois na maior calma e na mais incrível lentidão. E ainda mais: a viagem era feita por etapas em ritmo de passeio, parando em muitos lugares onde ele era sempre esperado com festas e cerimônias religiosas africanas, muita comida e muita bebida, pois todos sabiam que tudo seria pago pelo viajante ilustre. Dessa maneira nunca o trajeto de Porto Alegre à Cidreira era feito em menos de uma semana. Quando eram gastos apenas cinco dias, considerava-se um recorde de velocidade.

Com as carretas de transporte dos passageiros seguiam outras carregadas de mantimentos, inclusive muitos sacos de milho e dezenas de fardos de alfafa, aos cuidados dos empregados, pois os cavalos de corrida do príncipe também iam aos banhos de mar. Isso, ele como treinador e tratador, fazia questão fechada.

A maior festa que a Cidade Baixa já viu foi quando Custódio completou cem anos de idade. Nesse dia muita gente "bem" foi abraçá-lo em sua casa, e ele, dando demonstração de sua vitalidade exuberante, montou a cavalo sem receber qualquer ajuda. Aliás, isto ele fez até poucos dias antes de sua morte, quatro anos depois.

No dia 26 de maio de 1936 morreu o príncipe Custódio aos 104 anos de existência. Seu velório e seu enterro, atendendo ao pedido expresso do morto, foi feito dentro das tradições africanas com muito batuque e muitos "trabalhos", em intenção do morto.

Com ele desapareceu uma das figuras mais impressionantes e esquisitas da nossa cidade, e muita gente ficou desamparada, pois a subvenção paga mensalmente em libras pelo governo inglês extinguiu-se com a morte do príncipe de Ajudá.

terça-feira, 5 de março de 2013

LEGBA - ITAN




Legba é o filho caçula de Mawu, de seu sétimo parto, que não herdou domínios no universo criado por seus pais quando houve partilha entre seus irmãos mais velhos, porquê ainda era muito criança para poder governar alguma parte da criação, porém, ficou incumbido de observar de tudo o que se passa na criação, nos governos de seus irmãos, entre seres humanos e no mundo espiritual, e tudo que houver, ver e ouvir, comunicar a Mawu.
Um vodum muito brincalhão, astuto, genioso, e por vezes vingativo. De raríssima inteligência.
Conta uma lenda que por não receber nenhum agrado após ter enchido de clientes um mercado, ele criou uma serpente e mandou que a mesma mordesse todos naquele mercado, e assim foi, só que um dia a serpente, de tanto morder, se esqueceu e mordeu ela mesma, então, procurou Legba para curá-la, para tal ele pediu um agrado, e ela lhe ofereceu akwé (dinheiro) então ele foi ao mercado e comprou ami-vovo (azeite- de-dendê) para beber, e se foi todo feliz.
Encontrando com um amigo pelo caminho, que lhe perguntou que bicho era aquele que mordia todo mundo no mercado, Legba sorrindo disse que era azé (feitiço) que ele sabia fazer, e que se o amigo quisesse, fizesse um feitiço sob encomenda, mas lhe oferecesse dois frangos, oitenta cauris, e outras coisas mais...e eis que imediatamente Legba ficou conhecido como grande feiticeiro naquele lugar.
Esta lenda do antigo Dahomey ilustra bem a figura de Legba e por que deve ser sempre reverenciado antes de qualquer ritual dentro do Candomblé.

Fonte: Texto de Ifabimi - Papoinformal


ESU LEVA PROSPERIDADE, RIQUEZA, SAÚDE E AMIZADE À CASA DE ORUNMILA 


Havia quatro amigos que conviviam juntos no orun, prosperidade, riqueza, saúde e amizade. Ambos decidem vir para o aye, onde estavam vivendo Esu e Orunmila, que também eram muito amigos, a ponto de Esu viver constantemente dentro da casa de Orunmila. 
Em determinado dia, Orunmila em companhia de sua mulher, consulta seu Ifá para saber o que deveria fazer para ter, prosperidade, riqueza, saúde e amizade. É aconselhado a fazer determinadas oferendas à Esu, as quais se recusa a fazer pois disse estar muito cansado, porém sua mulher que o acompanhava no momento da consulta, passa a cobra-lo da execução das oferendas, pois acreditava que isto estava bloqueando a vinda de prosperidade, riqueza, saúde e amizade para a vida de Orunmila. 
Enquanto isso no orun, os quatro amigos resolvem pôr vez, vir para o aye e trazer um presente para Orunmila. Antes, porém, consultam o Ifá para saber se chegariam bem à terra (aye). Ifá determina que façam uma oferenda, que além de outras coisas, deveriam ofertar um ofá cada um. Dentre os quatro, somente três fizeram a oferenda, o quarto não fez, pois alegou gostar muito do ofá para dispor dele para uma oferenda. Deram inicio à viagem. 
Andaram muito, e se cansaram inúmeras vezes, pois o caminho era muito longo, fazendo com que a viagem fosse bem demorada. Finalmente chegam ao ponto de encontro dos dois mundos, Orita, ali param e se sentam para descansar novamente, ficando a espera de que alguém passe pôr ali, a fim de indicar qual o caminho para a casa de Orunmila. 
Orunmila já estava ciente dos acontecimentos, mas sabia que se não fizesse a oferenda para Esu, o presente não chegaria até a casa dele. Como Esu tem pôr hábito ir periodicamente à Orita, lá chega e encontra os quatro amigos, primeiramente procura pôr comida, depois cumprimenta os quatro amigos e pergunta-lhe o que estão fazendo ali. Eles respondem: 
- estamos a espera de alguém para nos indicar o caminho da casa de Orunmila, pois trazemos presentes para ele. 
Esu diz para eles que não iria adiantar, pois ele havia saído da casa de Orunmila naquele instante e ele tinha morrido. Os quatro amigos se desesperam, pois não poderiam voltar para trás com toda a bagagem, era muito pesada e, longa demais a viagem. Despedem-se de Esu e voltam a se sentar para decidir o que fazer com tudo o que traziam. 
Dos quatro, aquele que ainda tinha o ofá sente-se culpado e, decepcionado, enforca-se. Os três restantes ficam mais preocupados ainda, pois agora teriam que dividir entre si, a bagagem que o outro trazia. Esu, nesse ínterim vai para a casa de Orunmila, e lá chegando, pergunta à Orunmila: 
Orunmila, quantos ouvidos você tem? 
Ele lhe responde: Dois. 
Esu pergunta: Para que ? 
Ele lhe responde: Para ouvir. 
Esu diz: Ouça bem então, há quatro coisas boa para vir para você, se me der um galo você as terá, caso contrário ficará sem elas. 
Orunmila ignora o pedido de Esu. Sua mulher mais uma vez presente, insiste para que ele de o galo à Esu e, diz que se ele não fizer a oferenda, irá se indispor com ele. Desta forma, Orunmila opta pôr fazer a oferenda que Esu havia pedido. Após feita a oferenda, Esu muda sua aparência, tomando uma forma velha, e vai até onde estavam os três amigos. 
E com voz de idoso, e muito convincente, diz: O que você estão fazendo aí? 
Relatam então, tudo o que havia se sucedido para Esu, sem saber que se tratava da mesma pessoa. 
Esu depois de ouvir tudo, diz: Imaginem só, Esu dizer que Orunmila morreu, ele mente, Orunmila é muito amigo meu, está vivo, tanto que acabei de sair de sua casa agora, onde fizemos um trabalho. Vamos levantem-se, eu os levarei até lá. 
Chegando a casa de Orunmila, sem que ninguém ouça, ele fala para Orunmila: Não lhe disse que vinham quatro coisas boas para sua casa...... 
E dessa forma, prosperidade, riqueza, saúde e amizade entram na casa de Orunmila. De onde deduzimos que, a atividade de Orunmila, não se completa sem Esu. 
Esu, grande deidade, inspetor da conduta dos seres humanos e dos rituais em si, a primeira estrela a ser criada pôr Eledunmare, foi lhe outorgado o poder da transferência do asé, o primeiro mito a ser criado. 
Traz em si o fenômeno da dupla personalidade, joga em dois times sem o menor constrangimento, só esta de acordo com os que cumprem seus deveres com ele. Foi criado para gerar a dúvida no homem, e fazer com que a hierarquia seja respeitada. Ele tem o poder de transformar e manipular as pessoas, quando não é tratado convenientemente, ele bloqueia os caminhos.

segunda-feira, 4 de março de 2013

O PAI DAS FOLHAS, AJUDARÁ NOS ACORDOS E UNIÕES



Regência da Semana: ÒSÁNYÌN 04/03/2013
O Pai das folhas te deixará sensato e perfeccionista. Ajudará na saúde, acordos e uniões. Não permita humilhações.
Simbologia:
Òsányìn é representado por uma árvore em ferro, com um pássaro pousado. Dia: segunda-feira, bom para pesquisas.
Oferenda:
miã miã com linguiça, ovo e opete..
Cores:
Verde, branco e amarelo que simbolizam criatividade e atraem sucesso.
Características do Orixá:
Òsányìn é sábio e enigmático. O ritual onde são utilizadas as folhas litúrgicas para o àgbo ou omi èro (banhos sagrados) é chamado de Sàsányìn (homenagem a Òsányìn). Este ritual é comandado pelo Bàbálósanyìn ou Olóòsanyìn (Sacerdote encarregado de colher às folhas).
Axés & Magias:
Os filhos de Òsányìn são trabalhadores e de bom coração. Carismáticos, eles valorizam a liberdade, não se apegam aos bens materiais e podem tornar-se grandes líderes religiosos. Seu maior ewò (tabu) é o peixe de pele.
SIMPATIA DA SEMANA: PARA LIVRAR-SE DE INVEJA
Se você ou sua família está sendo vitima de inveja, pegue duas espadas de São Jorge, amarre-as com um barbante fazendo uma cruz e deixe-as atrás da porta principal de um dia para o outro. Depois, pegue as espadas e jogue-as numa lixeira bem longe da sua casa. Faça com fé e xô inveja!


sábado, 2 de março de 2013

LEGBA III







LEGBA, MEDIADOR ENTRE OS VODUN

Eis um papel delicado e dramático, visto que a ordem estabelecida pode ser posta em dúvida pelo mediador. Sobretudo quando se sabe que cada vodun tem seu idioma particular e que nenhum dêles compreende a língua dos outros, pode-se avaliar a importância da posição tomada por Mawu-Lissa, confiando o papel de intérprete e mensageiro a Legbá. São inúmeros os mitos que relatam como Legbá usou o seu conhecimento das línguas dos diversos vodun para enganá-los. Dessa forma , muitas vêzes, atirou uns contra os outros. Assim fazendo, impôs-se como chefe e cabeça de jogo, beneficiande se das contendas constantes entre os vodun. Outro privilégio de Legbá: - nenhuma comunicação pode existir entre o Criador e tal ou qual vodun sem sua intervenção. Cabe a êle assegurar a permanência das relações entre o Criador e os vodun, cada um dêles gerindo um domínio particular. Isto significa que Legbá asegura o controle e o domínio das vias de comunicações no mundo divino. Esse controle por parte do servidor tem sido bem compreendido em numerosos mitos onde se trata da metamorfose do servo mensageiro em patrão mensageiro. Realmente, nos ritos específicos em honra dos vodun, assiste-se à dramatização dessa função: Legbá, mensageiro dos vodun, é sempre invocado antes daqueles a quem deve levar a mensagem. Na mesma ordem de idéias, recebe êle as oferendas e libações, antes de todas as outras divindades. Segundo as interpretações ou justificações que certos especialistas autóctones dos mitos dão dessas práticas e rituais, trata-se de destruir as maquinações eventuais de Legbá e apaziguar-lhe as cóleras imprevisíveis. Efetivamente, uma das frases consagradas com o fim de caracterizar o personagem sem caráter determinado que é Legbá é a seguinte: - Agbo hanyan hanyan gba! ou seja "Agbo, em torno dêle está a desordem!" E assim, o mensageiro e intérprete da esfera divina é mais temido e respeitado do que todas as outras divindades.

LEGBA, INTERMIDIARIO ENTRE OS VODUN E OS HOMENS

E o vodun mais popular. Contam os mitos que êle toma parte deliberadamente em favor dos homens nos choques com as divindades.
Todo homem que é envolvido em uma situação crítica recorre a seus bons serviços. São-lhe destinados sacrifícios em todos os lugares em que se ergue sua efígie: nas entradas das a ideias (Tô-Legbá), em todas as encruzilhadas e bifurcações de estradas, em todos os lugares de concentração, tais como os mercados (Ahi-Legbá), diante das fachadas (Agbo-nouhossou), diante dos santuários das outras divindades (Houn-Legbá). Sua efígie é representada por uma figura estranha e impressionante, da  qual diz-se muito mal; mas não nos detenhamos aqui em todas essas considerações. Digamos que Legbá inspira aos daomeanos, não o temor, mas a afeição. É a divindade mais próxima, à qual contam êles tudo que encerra o seu inconsciente e a quem fazem promessa como a um amigo. O animal que lhe é consagrado é o cão e quando os daomeanos vêem um cão a comer o alimento oferecido a Legbá, ficam maravilhados. Tal espetáculo do cão a devorar a oferenda prodigaliza uma enorme segurança. Esses sinais de afeto e de simplicidade no culto de Legbá, da desprendimento (já que Legbá não tem casa de culto, nem sacerdote, ao contrário das outras divindades), traduzem a grande familiaridade dessa divindade com os homens. Também lhe são dirigidas exclamações de grande intimidade: "Nou hanyan hanyan!" - a boca
em desordem; "Ma mon Legbá tacho nou chocho, e na gblé!" - já viram alguma vez Legbá gastar azeite, sem que se assista a um tumulto?"
Relembremos alguns de seus nomes fortes e constatemos tal familiaridade: - Rei-Destruidor de tôdas as cousas - Aquêle que come e sai com a boca suja - Aquêle que tem lábios grossos, etc. . .
E, pois, sem qualquer dissimulação que o indivíduo aflito dêle se aproxima. E é com confiança que espera sua intercessão junto aos vodun interessados por tal ou qual caso de infelicidade.
Na medida em que Legbá é mediador entre os homens e os deuses, os daomeanos que querem assegurar-se da sua cumplicidade ou da sua benevolência, antes de qualquer outra manifestação, deduzem que de suas fantasias depende o resultado de uma situação crítica.
Assim, frente ao vodun onisciente Mawu-Lissa, surge a silhueta familiar do vodun eficiente e representante da mudança ainda não realizada: - Legba.

A CORRESPONDENCIA DE LEGBA COM OS VALORES
ESSENCIAIS DA SOCIEDADE GLOBAL DOS DAOMEANOS


Falar dos valores essenciais da sociedade global significa designar a fonte de origem social mais importante que teve o privilégio de construir os mitos, graças aos elementos colhidos de todos os horizontes até onde as guerras e os contactos pacíficos conduziram os daomeanos. Os sacerdotes e altos dignitários do reino do Daomé dirigiam e controlavam os centros culturais onde se efetuavam os rituais, e reinterpretavam os mitos, segundo a situação sócio-política. Neste sentido, descobrimos na caracterização do personagem divino sem caráter determinado, que é Legbá, a expressão de um simbolismo que dá sentido tanto ao imaginário como ao real. O alto valor do homem acha-se aí acentuado. Com efeito, em tempo algum, algo pareceu irrealizável para os daomeanos. Mesmo quando a divindade do alea jacta est: Fa, se pronuncia e revela a impossibilidade, através da palavra do Criador Mawu-Lissa, os daomeanos sempre pensaram ser possível encontrar uma saída dentro do seu mundo regido pelo destino.
Segundo outro ponto-de-vista, essa sociedade, na qual a noção de hierarquia se achava incorporada em todas as instituições, produziu, no entanto valores significando a possibilidade de destmir a hierarquia estabelecida. O modêlo das linhagens é expresso pelo personagem divino Legbá; pois nas linhagens dos daomeanos, nas quais se adota o direito absoluto do primogênito sobre o mais moço, prevalece a impressão de que êste ou o irmão mais jovem não é relegado, para sempre, a um papel de simples subordinação. Muito ao contrário, é do mesmo que nascem novos valores apropriados para movimentar a linhagem. O irmão mais novo é sempre considerado como o ser inteligente por excelência. Nesse mundo, em que tudo se baseia no equilíbrio das forças, os daomeanos pensam que aquilo que o caçula perde em bens materiais, recupera no plano intelectual e espiritual.
Partindo dêsse ponto-de-vista, tal "falta" é considerada como uma situação de promoção certa.
Um último ponto pode, ainda reter nossa atenção. A fluência dos têrmos relacionados entre si na organização do panteão não traduz a desordem, mas a possibilidade de cada grupo cultural especializado dar prioridade à divindade que Ihe concerne de modo especial. Esta observação tem um profundo significado: expressa a ponto principal quanto ao nível dos valores. Os têrmos da hierarquia ou da configuração importam menos do que a relação entre êles. Um exemplo preciso pode convencer-nos disto. Enquanto no modêlo do panteão de que nos servimos ao longo dêste artigo a divindade Gou se acha na 5ª classe, na genealogia dos vodun, um outro modêlo, o do panteão do Céu, irá situá-lo na primeira. Assim em vez de 1) Dada Zodji e Nyhwé Ananou, 2 ) SÔ, 3) Agbé Naeté, 4) Agé, 5) Gou, 6) Djo, 7 ) Legbá teremos 1 ) Gou, 2) Agé, 3) Dji, 4) Wêtê-Alawê 5) Loko (mêdje) , 6) Adjakpa, 7) Legbá.
Que o leitor não se apegue demais a êsses nomes em si mesmos, mas constate sòmente as transferências de que são objeto certas divindades (passando-se do modêlo do panteão do céu ao da terra) e ,a relação mantida na hierarquia. Esta tendência é tal que o nome da divindade criadora ou demiurgo conhecerá modificações quando se quer aprofundar a dimensão do original. Uma divindade da qual não se tratou até agora, Nana-Buluku (que possui um templo em Doumé) vem às vêzes "apagar" e suprimir os nomes Mawu-Lissa.
Tudo se passa como se a sociedade quisesse exprimir que não há totalidade cerrada e que há sempre um ser dotado de ao menos uma pequena dose de ciência, mais do que outro. Legbá que não conhece nenhuma restrição e não receia nenhum tabu, se é verdade que não
respeita nenhuma ordem estabelecida, não põe, entretanto, em dúvida a exigência da ordem como tal. Ele a submete apenas às necessidades da mobilidade e da manipulação. Graças a êle toda obra concluída é sempre reiniciada e retrabalhada.

sexta-feira, 1 de março de 2013

AXÉ: A FORÇA SAGRADA

“NO DIA EM QUE UM HOMEM ENGOLIR UMA GALINHA INTEIRA, VIVA, SEM TIRAR AS PENAS, O SANGUE E AS VISCERAS; NO DIA EM QUE UM PARTO NÃO SANGRAR E A ÁGUA NÃO VERTER SOBRE A TERRA, NESTE DIA EU DEIXO DE CORTAR PARA O ORIXÁ.”


O singnificado do sangue

“... o conteúdo mais precioso de um Ilê é o axé. É a força que assegura a existência dinâmica, que permite o acontecer e o devir. sem axé a existência estaria paralisada, desprovida de toda a possibilidade de realização. é o princípio que torna possível o processo vital.”
                                             juana elbein dos santos

sacrifícios_

sacrifício não é assassinato, relacionado que está ligado à rituais sagrados, visando, no batuque, ampliar, acumular e distribuir a força vital e sagrada que é o axé. boa parte das religiões utilizava o sacrifício em seus rituais.
 entre os cristãos, por exemplo, a extinção do sacrifício (em termos reais) justifica-se pela morte de jesus cristo; que teria morrido para salvar a humanidade no mais importante sacrifício que o mundo assistiu. ocorre que jesus morreu pelos cristãos, e não pelo africanismo, isso significa, na realidade, que os ritos processados em outra doutrina religiosa não fazem nenhum sentido para nossos orixás; da mesma forma que os rituais de africanos fogem à compreensão da igreja católica.

Em outras palavras, o batuque só se explica pelo batuque, não adiantando recorrer á bíblia para explicar e muito menos para condenar as práticas da religião dos orixás.

o sangue é de importância vital para os orixás, pois está ligado à concepção, à fertilidade, ao nascimento e a todas as etapas da vida. sem sangue não há axé. ninguém nasce sem sangue. quando deixar de haver sacrifícios, o batuque deixará de existir.

Não se derrama do sangue dos animais por maldade, por crueldade, muito menos para fazer mal a alguém. o sacrificíco é a condição para que a vida continue, e não apenas no batuque. todos se alimentam, seja de carne ou de vegetal, e um boi pode ser comido em bifes. ou seja, em partes e depois de morto; uma alface ao ser desconectada de sua raiz, também é morta.  então, por que não se pode atribuir um significado religioso a um ato essencial para a sobrevivência humana?
  o ritual macrabro não está nos Ilês, e sim nos matadouros, onde os animais são submetidos a inúmeras crueldades e morrem com muito sofrimento. imaginem um animal ainda vivo tendo sua pele totalmente arrancada: isso é um exemplo do que ocorre nos matadouros. é por isso que a carne que será consumida pelo iniciado deve ser sacralizada por meio de rituais específicos; a carne de um animal que morreu com sofrimento não faz bem a ninguém.

  é um absurdo acusar o batuque de realizar sacrifícios humanos como tem feito algumas igrejas. o batuque não é uma religião hipócrita e assume o que faz. são sacrificados, sim, bois, bodes, galinhas, patos e muitos outros animais, que depois servem de alimentos à comunidade, mas nunca seres humanos, pois o orixá vive no homem e atravéz do homem.

lembren-se que jesus foi condenado à morte por pessoas que viriam a santificá-lo mais tarde, fazendo o sinal da cruz, adorando sua imagem ensanguentada. pois que fique bem claro: não somos contra o homem jesus, mas contra os homens que mataram jesus. nós não matamos nossos orixás, nós os amamos com todos os seus defeitos e qualidades.

sangue_ as três fontes de axé

para o batuque tudo que a natureza produz é sangue, pois o que define o sangue é a força que detém, ou seja, o axé. o sacrifício requer a utilização de varios tipos de sangue, vindo das mais variadas fontes da natureza, atribuindo vida e sentido ao orixá, aos homens e à própria existência.

sangue vermelho

o sangue divide-se em três categorias: o sangue vermelho, o preto eo branco. Os elementos detentores desse axé são encontrados nos reinos animal, vegetal e mineral, configurando a parte material, visível e palpável da força vital.


o sangue vermelho do reino animal é representado pelo fluxo menstrual, pelo sangue dos animais e pelo sangue humano. portanto todas as pessoas são portadoras de axé.  no reino vegetal, o sangue vermelho é representado pelo azeite-de-dendê, o òsún (semente) e o mel extraídos da flor, são os melhores exemplos. os metais como bronze e o cobre são portadores do sangue vermelho proveniente do reino mineral.
o sangue vermelho está mais diretamente relacionado às coisas quentes, ao movimento e ao fogo, razão pela qual os orixás que exigem uma quantidade maior desses elementos, dominam exatamente esse aspecto da natureza, como Bará, xangô e iansã.







sangue preto


no reino animal o sangue preto é encontrado principalmente nas cinzas de animais sacrificados. sendo a cor verde variação da cor preta, assim como o azul, o sumo das folhas, o pó azul chamdo wàji e extraído das árvores, são exemplos de sangue preto no reino vegetal. já o reino mineral, encontramos o carvão e o ferro.
a esses elementos relacionam-se mais diretamente os Orixás da terra, como Ogum, Odé, Otim, Ossanha, Xapanã e muitos outros> Isso não quer dizer que Deuses ligados a outros elementos não os utilizem.








sangue branco

o sêmem, a saliva, o halito, as secreções e o plasma, são considerados os portadores de sangue branco no reino animal. o caracol sacrificado a oxalá é um bom exemplo de animal de sangue branco.  no reino vegetal, está o sumo das plantas leitosas, e das bebidas alcoólicas extraídas das palmeiras e de outros vegetais. também está no ìyèrosùn ( pó utilizado pelos sacerdotes no opelê ifá) e no orí ( banha vegetal). no reino mineral temos o sal e o efun ( uma espécie de giz), a prata e o chumbo.


todos esses elementos são portadores de axé e combinados reforçam, ampliam e restabelecem a relação entre os homens e os deuses. o axé é uma força vital que pode ser acumulada e aumentada; e o sacrifício, com a utilização das mais variadas fontes de axé, provenientes de todos os reinos da natureza, é que fortalece o poder do orixá e de todas as casas de nação africana.




fonte: revista orixás
( ano 1,n°5; pg 24/26)





Para entrar em contato com pai Guilherme d'Bará ligue para o fone 53 84352242 ou pelo email buzionline@hotmail.com