Envolto numa auréola de nobreza autêntica viveu muitos anos em nossa Capital gaúcha uma figura estranha e original que conservou todos os seus hábitos de origem e todos os ritos extravagantes de sua seita negra...
"São João Batista de Ajudá" era uma fortaleza portuguesa no Daomé. A feitoria de São João Batista de Ajudá estava situada a 5 Km da costa Africana, de Leste ou "Papós", entre os rios da Lagoa e do Volta, tendo sido descoberta pelos portugueses, quando navegavam na costa da Guiné. Era a capital do Antigo reino do Daomé, edificado numa vasta planície outrora muito povoada de cristãos negros. O rei D. Pedro II ( de Portugal) mandou construir a referida fortaleza para proteger o importante comércio que então os portugueses faziam na Costa da Mina .
A Costa da Mina era um território à beira do Oceano Atlântico no golfo da Guiné. Foi ocupado pelos ingleses que ali estabeleceram importantes feitorias, que passaram que a ser defendidas pelas guarnições das fortalezas antes pertencentes a Portugal, entre as quais as de São João Batista de Ajudá.
Daomé faz fronteira de um lado com a Nigéria, que é o maior país da África atual, e do outro, com Togo, possessão alemã antes da I Guerra Mundial, este velho reino africano no começo foi colônia de vários países que se estabeleceram ao longo de seu território à margem do Atlântico, mas em 1876 a Grã-Bretanha terminou a ação que iniciara alguns anos antes comprando a parte dos demais ocupantes, tornando, então, a Costa do Ouro inteiramente de propriedade dos ingleses, os quais também tiveram de entrar em acordo com os reis e príncipes negros que governavam o gentio. Desta determinação britânica resultou a deportação de um rei africano, que somente em 1934 teve autorização para voltar a fim de passar sossegadamente o resto de seus dias na terra natal. Com outros governantes foram feitos acordos financeiros por eles aceitos a fim de evitar o massacre do seu povo. Entre estes estava o príncipe de São João Batista de Ajudá que deixou sua terra na Costa da Mina em 1862 quando tinha 31 anos de idade.
Ninguém sabe como e em que circunstâncias este príncipe governante deixou o porto de Ajudá, que era perto da Costa do Ouro (hoje República de Gana), onde, em algumas décadas anteriores, funcionava um dos principais locais de embarque de escravos para o Brasil, mas o certo é que ele partiu ante a promessa solene dos ingleses de que seu povo não sofreria o que haviam sofrido os grupos vizinhos ante a violência dos alemães e franceses.
Os portugueses antes poderosos tinham se contentado com uma parte do Guiné e com as Ilhas de São Tomé e Príncipe cedendo as suas fortalezas. As condições para que o Príncipe de Ajudá não oferecesse qualquer resistência aos invasores, além pelo respeito à vida dos seus súditos, era a de que se exilasse e jamais voltasse aos seus domínios. E, como parte do convênio, a Grã-Bretanha se comprometia a fornecer-lhe uma subvenção mensal paga em qualquer parte do mundo onde estivesse, por intermédio dos seus representantes consulares.
Por qual motivo o exilado escolheu o Brasil, não se sabe. Talvez por haver aqui grande número de descendentes dos escravos nativos da Costa da Mina - os chamados "pretos-mina" - ou outra qualquer razão; sua chegada a nossa terra foi assinada com acontecida em 1864, dois anos depois de ter deixado Ajudá. Inicialmente fixou-se em Rio Grande mais tarde foi para o interior de Bagé onde ficou conhecido por manter viva a tradição religiosa do seu povo - com a prática do que agora se conhece como Batuque - além de mostrar conhecimentos das propriedades curativas da nossa flora medicinal, atendendo muita gente doente que o procurava, tratando de minorar-lhes os males por meio de ervas e rezas dos ritos africanos.
De Bagé mudou-se para Porto Alegre onde chegou em 1901 com 70 anos de idade. Foi morar na Rua Lopo Gonçalves, nº498, cujos fundos davam para a Rua dos Venezianos (hoje Joaquim Nabuco), mas logo que o príncipe que havia adotado o nome brasileiro de Custódio Joaquim de Almeida - ali se instalou, passou a rua a ser preferida pela gente de cor que procurava com isso acercar-se do homem que incontestavelmente, era um líder de sua raça.
O príncipe Custódio - como então era chamado - iniciou-se ali uma nova etapa de sua aventurosa vida, cercando-se em Porto Alegre de um aparato digno de um verdadeiro fidalgo. A família do príncipe de Ajudá aos poucos foi crescendo e não demorou a atingir o número de 26 pessoas, sem contar os empregados em boa quantidade.
Os fundos da casa onde morava - com saída à Rua dos Venezianos (Joaquim Nabuco, hoje) - servia para a sua coudelaria, pois possuía nada menos do que nove cavalos de raça - alguns importados da Inglaterra - os quais todos os domingos disputavam corridas. Para manter e cuidar esses animais havia um grupo selecionado de empregados, jóqueis, etc., sob a supervisão direta do príncipe, que se classificava como "tratador".
O príncipe Custódio tinha oito filhos, três homens e cinco mulheres (atualmente ainda estão vivos um homem - Dionísio Joaquim Almeida, funcionário aposentado da EBCT - em Porto Alegre, e duas senhoras, uma residindo no Rio de Janeiro e outra em São Paulo) e para esses oito filhos, quando pequenos, mantinha quatro empregados, um para cada dois.
Seus conhecimentos de idioma português não eram muito corretos, porém podia expressar-se fluentemente em inglês e francês, além de falar ainda vários dialetos das tribos africanas que havia governado.
As festas a que levava a efeito periodicamente em sua casa - notadamente na data de seu aniversário - duravam três dias com a casa sempre cheia de gente, da manhã à noite, se comia e se bebia do bom e do melhor ao som dos tambores africanos que batucavam sem parar naquelas setenta e duas horas. E nesses dias o príncipe recebia a visita da gente mais ilustre da cidade, inclusive do presidente do Estado, Borges de Medeiros que, conhecendo a ascendência daquele homem sobre a população de cor, ia felicitá-lo, talvez mais por motivos políticos do que por outra coisa. Naquelas festividades era certo o comparecimento de senhoras e cavalheiros da melhor sociedade porto-alegrense, além de capitães da indústria e comércio que dele precisavam o apoio para o perigo de greves e outras imposições. As mais finas bebidas eram importadas diretamente da Europa, especialmente para aquelas ocasiões especiais, embora elas nunca faltassem a mesas do príncipe exilado.
A casa do príncipe vivia sempre lotada de gente, de visitantes e de pessoas que ele encontrava nas ruas e lhe pediam auxílio. Mandava essas pessoas embarcarem na carruagem em que estivesse e as levava para a sua residência onde sempre havia lugar para mais um . Todos ali ficavam até que quisessem ir embora. Entre os que viveram muito tempo junto ao príncipe estava um branco, desdente de alemães oriundo de São Sebastião do Caí, que tinha feito estudos de medicina e dessa maneira o auxiliava no atendimento aos doentes que continuamente o procuravam em busca dos remédios e dos "trabalhos" do chefe africano exilado.
Para os rigores do inverno o príncipe Custódio adotou o poncho gaúcho, embora não dispensasse o gorro que marcava a sua personalidade, não o deixando nem quando visitava o Palácio Piratini onde sempre era bem vindo e onde havia ordens superiores de bom atendimento, e onde ele muitas vezes usava o seu prestígio para conseguir alguma coisa que lhe fosse solicitada por qualquer membro de sua comunidade.
Durante todos os anos em que viveu em Porto Alegre - 31 ao todo - nunca manteve correspondência ostensiva com parentes ou amigos deixados em terras africanas. De lá recebia informações e daqui envia notícias suas em mãos por intermédio de marítimos que tripulavam vapores vindos à nossa metrópole transportando e levando mercadorias. Também nunca se soube o teor dessas correspondências. De incentivo ao seu povo para uma possível rebelião não era. Pois ele sabia ser isso humanamente impossível. Além disso, a Inglaterra, em todo o longo período do seu exílio, sempre cumpriu religiosamente o que fora estipulado. Mensalmente o consulado britânico local entregava-lhe um saquinho cheio de libras esterlinas, cuja troca em mil-réis servia para manter a pequena corte da Rua Lopo, a família numerosa, os agregados, os empregados, e ainda serviam àqueles que o procuravam nos momentos de aperturas financeiras.
No verão, em janeiro, o programa era conhecido. Ia todo mundo para a casa de propriedade de Custódio Joaquim de Almeida, na Praia de Cidreira. A viagem para o velho balneário era qualquer coisa de sensacional e folclórico. Embora fosse dono de carruagem e tivesse dinheiro para alugar quantas diligências quisesse, o príncipe gostava de viajar em carretas puxadas por bois na maior calma e na mais incrível lentidão. E ainda mais: a viagem era feita por etapas em ritmo de passeio, parando em muitos lugares onde ele era sempre esperado com festas e cerimônias religiosas africanas, muita comida e muita bebida, pois todos sabiam que tudo seria pago pelo viajante ilustre. Dessa maneira nunca o trajeto de Porto Alegre à Cidreira era feito em menos de uma semana. Quando eram gastos apenas cinco dias, considerava-se um recorde de velocidade.
Com as carretas de transporte dos passageiros seguiam outras carregadas de mantimentos, inclusive muitos sacos de milho e dezenas de fardos de alfafa, aos cuidados dos empregados, pois os cavalos de corrida do príncipe também iam aos banhos de mar. Isso, ele como treinador e tratador, fazia questão fechada.
A maior festa que a Cidade Baixa já viu foi quando Custódio completou cem anos de idade. Nesse dia muita gente "bem" foi abraçá-lo em sua casa, e ele, dando demonstração de sua vitalidade exuberante, montou a cavalo sem receber qualquer ajuda. Aliás, isto ele fez até poucos dias antes de sua morte, quatro anos depois.
No dia 26 de maio de 1936 morreu o príncipe Custódio aos 104 anos de existência. Seu velório e seu enterro, atendendo ao pedido expresso do morto, foi feito dentro das tradições africanas com muito batuque e muitos "trabalhos", em intenção do morto.
Com ele desapareceu uma das figuras mais impressionantes e esquisitas da nossa cidade, e muita gente ficou desamparada, pois a subvenção paga mensalmente em libras pelo governo inglês extinguiu-se com a morte do príncipe de Ajudá.
SEJAM BEM VINDOS AO BLOG DE NOSSA CASA,ONDE TRAGO INFORMAÇÕES SOBRE ORIXÁS E EXUS, ARTIGOS HISTORICOS E ANTROPOLOGICOS.TRAZENDO DE FORMA PIONEIRA UM NOVO CONCEITO DE ATENDIMENTO.CADA VEZ MAIS PERCEBO O QUANTO E NESCESSARIO O CONSULENTE SER BEM ORIENTADO E PERCEBENDO ISSO, IMPLANTEI UMA NOVA FORMA DE ORIENTAÇÃO,O ACONSELHAMENTO, POIS E ATRAVEZ DESSE TRATAMENTO E QUE REALMENTE PODEMOS FAZER A DIFERENÇA. CONTATO PARA ATENDIMENTO TELEFONE 53 992029090, WATS 53991031419. INSTAGRAM @alfredo_do_bara
quarta-feira, 6 de março de 2013
terça-feira, 5 de março de 2013
LEGBA - ITAN
Legba é o filho caçula de Mawu, de seu sétimo parto, que não herdou domínios no universo criado por seus pais quando houve partilha entre seus irmãos mais velhos, porquê ainda era muito criança para poder governar alguma parte da criação, porém, ficou incumbido de observar de tudo o que se passa na criação, nos governos de seus irmãos, entre seres humanos e no mundo espiritual, e tudo que houver, ver e ouvir, comunicar a Mawu.
Um vodum muito brincalhão, astuto, genioso, e por vezes vingativo. De raríssima inteligência.
Conta uma lenda que por não receber nenhum agrado após ter enchido de clientes um mercado, ele criou uma serpente e mandou que a mesma mordesse todos naquele mercado, e assim foi, só que um dia a serpente, de tanto morder, se esqueceu e mordeu ela mesma, então, procurou Legba para curá-la, para tal ele pediu um agrado, e ela lhe ofereceu akwé (dinheiro) então ele foi ao mercado e comprou ami-vovo (azeite- de-dendê) para beber, e se foi todo feliz.
Encontrando com um amigo pelo caminho, que lhe perguntou que bicho era aquele que mordia todo mundo no mercado, Legba sorrindo disse que era azé (feitiço) que ele sabia fazer, e que se o amigo quisesse, fizesse um feitiço sob encomenda, mas lhe oferecesse dois frangos, oitenta cauris, e outras coisas mais...e eis que imediatamente Legba ficou conhecido como grande feiticeiro naquele lugar.
Esta lenda do antigo Dahomey ilustra bem a figura de Legba e por que deve ser sempre reverenciado antes de qualquer ritual dentro do Candomblé.
Fonte: Texto de Ifabimi - Papoinformal
ESU LEVA PROSPERIDADE, RIQUEZA, SAÚDE E AMIZADE À CASA DE ORUNMILA
Havia quatro amigos que conviviam juntos no orun, prosperidade, riqueza, saúde e amizade. Ambos decidem vir para o aye, onde estavam vivendo Esu e Orunmila, que também eram muito amigos, a ponto de Esu viver constantemente dentro da casa de Orunmila.
Em determinado dia, Orunmila em companhia de sua mulher, consulta seu Ifá para saber o que deveria fazer para ter, prosperidade, riqueza, saúde e amizade. É aconselhado a fazer determinadas oferendas à Esu, as quais se recusa a fazer pois disse estar muito cansado, porém sua mulher que o acompanhava no momento da consulta, passa a cobra-lo da execução das oferendas, pois acreditava que isto estava bloqueando a vinda de prosperidade, riqueza, saúde e amizade para a vida de Orunmila.
Enquanto isso no orun, os quatro amigos resolvem pôr vez, vir para o aye e trazer um presente para Orunmila. Antes, porém, consultam o Ifá para saber se chegariam bem à terra (aye). Ifá determina que façam uma oferenda, que além de outras coisas, deveriam ofertar um ofá cada um. Dentre os quatro, somente três fizeram a oferenda, o quarto não fez, pois alegou gostar muito do ofá para dispor dele para uma oferenda. Deram inicio à viagem.
Andaram muito, e se cansaram inúmeras vezes, pois o caminho era muito longo, fazendo com que a viagem fosse bem demorada. Finalmente chegam ao ponto de encontro dos dois mundos, Orita, ali param e se sentam para descansar novamente, ficando a espera de que alguém passe pôr ali, a fim de indicar qual o caminho para a casa de Orunmila.
Orunmila já estava ciente dos acontecimentos, mas sabia que se não fizesse a oferenda para Esu, o presente não chegaria até a casa dele. Como Esu tem pôr hábito ir periodicamente à Orita, lá chega e encontra os quatro amigos, primeiramente procura pôr comida, depois cumprimenta os quatro amigos e pergunta-lhe o que estão fazendo ali. Eles respondem:
- estamos a espera de alguém para nos indicar o caminho da casa de Orunmila, pois trazemos presentes para ele.
Esu diz para eles que não iria adiantar, pois ele havia saído da casa de Orunmila naquele instante e ele tinha morrido. Os quatro amigos se desesperam, pois não poderiam voltar para trás com toda a bagagem, era muito pesada e, longa demais a viagem. Despedem-se de Esu e voltam a se sentar para decidir o que fazer com tudo o que traziam.
Dos quatro, aquele que ainda tinha o ofá sente-se culpado e, decepcionado, enforca-se. Os três restantes ficam mais preocupados ainda, pois agora teriam que dividir entre si, a bagagem que o outro trazia. Esu, nesse ínterim vai para a casa de Orunmila, e lá chegando, pergunta à Orunmila:
Orunmila, quantos ouvidos você tem?
Ele lhe responde: Dois.
Esu pergunta: Para que ?
Ele lhe responde: Para ouvir.
Esu diz: Ouça bem então, há quatro coisas boa para vir para você, se me der um galo você as terá, caso contrário ficará sem elas.
Orunmila ignora o pedido de Esu. Sua mulher mais uma vez presente, insiste para que ele de o galo à Esu e, diz que se ele não fizer a oferenda, irá se indispor com ele. Desta forma, Orunmila opta pôr fazer a oferenda que Esu havia pedido. Após feita a oferenda, Esu muda sua aparência, tomando uma forma velha, e vai até onde estavam os três amigos.
E com voz de idoso, e muito convincente, diz: O que você estão fazendo aí?
Relatam então, tudo o que havia se sucedido para Esu, sem saber que se tratava da mesma pessoa.
Esu depois de ouvir tudo, diz: Imaginem só, Esu dizer que Orunmila morreu, ele mente, Orunmila é muito amigo meu, está vivo, tanto que acabei de sair de sua casa agora, onde fizemos um trabalho. Vamos levantem-se, eu os levarei até lá.
Chegando a casa de Orunmila, sem que ninguém ouça, ele fala para Orunmila: Não lhe disse que vinham quatro coisas boas para sua casa......
E dessa forma, prosperidade, riqueza, saúde e amizade entram na casa de Orunmila. De onde deduzimos que, a atividade de Orunmila, não se completa sem Esu.
Esu, grande deidade, inspetor da conduta dos seres humanos e dos rituais em si, a primeira estrela a ser criada pôr Eledunmare, foi lhe outorgado o poder da transferência do asé, o primeiro mito a ser criado.
Traz em si o fenômeno da dupla personalidade, joga em dois times sem o menor constrangimento, só esta de acordo com os que cumprem seus deveres com ele. Foi criado para gerar a dúvida no homem, e fazer com que a hierarquia seja respeitada. Ele tem o poder de transformar e manipular as pessoas, quando não é tratado convenientemente, ele bloqueia os caminhos.
segunda-feira, 4 de março de 2013
O PAI DAS FOLHAS, AJUDARÁ NOS ACORDOS E UNIÕES
Regência da Semana: ÒSÁNYÌN 04/03/2013
O Pai das folhas te deixará sensato e perfeccionista. Ajudará na saúde, acordos e uniões. Não permita humilhações.
Simbologia:
Òsányìn é representado por uma árvore em ferro, com um pássaro pousado. Dia: segunda-feira, bom para pesquisas.
Oferenda:
miã miã com linguiça, ovo e opete..
Cores:
Verde, branco e amarelo que simbolizam criatividade e atraem sucesso.
Características do Orixá:
Òsányìn é sábio e enigmático. O ritual onde são utilizadas as folhas litúrgicas para o àgbo ou omi èro (banhos sagrados) é chamado de Sàsányìn (homenagem a Òsányìn). Este ritual é comandado pelo Bàbálósanyìn ou Olóòsanyìn (Sacerdote encarregado de colher às folhas).
Axés & Magias:
Os filhos de Òsányìn são trabalhadores e de bom coração. Carismáticos, eles valorizam a liberdade, não se apegam aos bens materiais e podem tornar-se grandes líderes religiosos. Seu maior ewò (tabu) é o peixe de pele.
SIMPATIA DA SEMANA: PARA LIVRAR-SE DE INVEJA
Se você ou sua família está sendo vitima de inveja, pegue duas espadas de São Jorge, amarre-as com um barbante fazendo uma cruz e deixe-as atrás da porta principal de um dia para o outro. Depois, pegue as espadas e jogue-as numa lixeira bem longe da sua casa. Faça com fé e xô inveja!
sábado, 2 de março de 2013
LEGBA III
LEGBA, MEDIADOR ENTRE OS VODUN
Eis um papel delicado e dramático, visto que a ordem estabelecida pode ser posta em dúvida pelo mediador. Sobretudo quando se sabe que cada vodun tem seu idioma particular e que nenhum dêles compreende a língua dos outros, pode-se avaliar a importância da posição tomada por Mawu-Lissa, confiando o papel de intérprete e mensageiro a Legbá. São inúmeros os mitos que relatam como Legbá usou o seu conhecimento das línguas dos diversos vodun para enganá-los. Dessa forma , muitas vêzes, atirou uns contra os outros. Assim fazendo, impôs-se como chefe e cabeça de jogo, beneficiande se das contendas constantes entre os vodun. Outro privilégio de Legbá: - nenhuma comunicação pode existir entre o Criador e tal ou qual vodun sem sua intervenção. Cabe a êle assegurar a permanência das relações entre o Criador e os vodun, cada um dêles gerindo um domínio particular. Isto significa que Legbá asegura o controle e o domínio das vias de comunicações no mundo divino. Esse controle por parte do servidor tem sido bem compreendido em numerosos mitos onde se trata da metamorfose do servo mensageiro em patrão mensageiro. Realmente, nos ritos específicos em honra dos vodun, assiste-se à dramatização dessa função: Legbá, mensageiro dos vodun, é sempre invocado antes daqueles a quem deve levar a mensagem. Na mesma ordem de idéias, recebe êle as oferendas e libações, antes de todas as outras divindades. Segundo as interpretações ou justificações que certos especialistas autóctones dos mitos dão dessas práticas e rituais, trata-se de destruir as maquinações eventuais de Legbá e apaziguar-lhe as cóleras imprevisíveis. Efetivamente, uma das frases consagradas com o fim de caracterizar o personagem sem caráter determinado que é Legbá é a seguinte: - Agbo hanyan hanyan gba! ou seja "Agbo, em torno dêle está a desordem!" E assim, o mensageiro e intérprete da esfera divina é mais temido e respeitado do que todas as outras divindades.
LEGBA, INTERMIDIARIO ENTRE OS VODUN E OS HOMENS
E o vodun mais popular. Contam os mitos que êle toma parte deliberadamente em favor dos homens nos choques com as divindades.
Todo homem que é envolvido em uma situação crítica recorre a seus bons serviços. São-lhe destinados sacrifícios em todos os lugares em que se ergue sua efígie: nas entradas das a ideias (Tô-Legbá), em todas as encruzilhadas e bifurcações de estradas, em todos os lugares de concentração, tais como os mercados (Ahi-Legbá), diante das fachadas (Agbo-nouhossou), diante dos santuários das outras divindades (Houn-Legbá). Sua efígie é representada por uma figura estranha e impressionante, da qual diz-se muito mal; mas não nos detenhamos aqui em todas essas considerações. Digamos que Legbá inspira aos daomeanos, não o temor, mas a afeição. É a divindade mais próxima, à qual contam êles tudo que encerra o seu inconsciente e a quem fazem promessa como a um amigo. O animal que lhe é consagrado é o cão e quando os daomeanos vêem um cão a comer o alimento oferecido a Legbá, ficam maravilhados. Tal espetáculo do cão a devorar a oferenda prodigaliza uma enorme segurança. Esses sinais de afeto e de simplicidade no culto de Legbá, da desprendimento (já que Legbá não tem casa de culto, nem sacerdote, ao contrário das outras divindades), traduzem a grande familiaridade dessa divindade com os homens. Também lhe são dirigidas exclamações de grande intimidade: "Nou hanyan hanyan!" - a boca
em desordem; "Ma mon Legbá tacho nou chocho, e na gblé!" - já viram alguma vez Legbá gastar azeite, sem que se assista a um tumulto?"
Relembremos alguns de seus nomes fortes e constatemos tal familiaridade: - Rei-Destruidor de tôdas as cousas - Aquêle que come e sai com a boca suja - Aquêle que tem lábios grossos, etc. . .
E, pois, sem qualquer dissimulação que o indivíduo aflito dêle se aproxima. E é com confiança que espera sua intercessão junto aos vodun interessados por tal ou qual caso de infelicidade.
Na medida em que Legbá é mediador entre os homens e os deuses, os daomeanos que querem assegurar-se da sua cumplicidade ou da sua benevolência, antes de qualquer outra manifestação, deduzem que de suas fantasias depende o resultado de uma situação crítica.
Assim, frente ao vodun onisciente Mawu-Lissa, surge a silhueta familiar do vodun eficiente e representante da mudança ainda não realizada: - Legba.
A CORRESPONDENCIA DE LEGBA COM OS VALORES
ESSENCIAIS DA SOCIEDADE GLOBAL DOS DAOMEANOS
ESSENCIAIS DA SOCIEDADE GLOBAL DOS DAOMEANOS
Falar dos valores essenciais da sociedade global significa designar a fonte de origem social mais importante que teve o privilégio de construir os mitos, graças aos elementos colhidos de todos os horizontes até onde as guerras e os contactos pacíficos conduziram os daomeanos. Os sacerdotes e altos dignitários do reino do Daomé dirigiam e controlavam os centros culturais onde se efetuavam os rituais, e reinterpretavam os mitos, segundo a situação sócio-política. Neste sentido, descobrimos na caracterização do personagem divino sem caráter determinado, que é Legbá, a expressão de um simbolismo que dá sentido tanto ao imaginário como ao real. O alto valor do homem acha-se aí acentuado. Com efeito, em tempo algum, algo pareceu irrealizável para os daomeanos. Mesmo quando a divindade do alea jacta est: Fa, se pronuncia e revela a impossibilidade, através da palavra do Criador Mawu-Lissa, os daomeanos sempre pensaram ser possível encontrar uma saída dentro do seu mundo regido pelo destino.
Segundo outro ponto-de-vista, essa sociedade, na qual a noção de hierarquia se achava incorporada em todas as instituições, produziu, no entanto valores significando a possibilidade de destmir a hierarquia estabelecida. O modêlo das linhagens é expresso pelo personagem divino Legbá; pois nas linhagens dos daomeanos, nas quais se adota o direito absoluto do primogênito sobre o mais moço, prevalece a impressão de que êste ou o irmão mais jovem não é relegado, para sempre, a um papel de simples subordinação. Muito ao contrário, é do mesmo que nascem novos valores apropriados para movimentar a linhagem. O irmão mais novo é sempre considerado como o ser inteligente por excelência. Nesse mundo, em que tudo se baseia no equilíbrio das forças, os daomeanos pensam que aquilo que o caçula perde em bens materiais, recupera no plano intelectual e espiritual.
Partindo dêsse ponto-de-vista, tal "falta" é considerada como uma situação de promoção certa.
Um último ponto pode, ainda reter nossa atenção. A fluência dos têrmos relacionados entre si na organização do panteão não traduz a desordem, mas a possibilidade de cada grupo cultural especializado dar prioridade à divindade que Ihe concerne de modo especial. Esta observação tem um profundo significado: expressa a ponto principal quanto ao nível dos valores. Os têrmos da hierarquia ou da configuração importam menos do que a relação entre êles. Um exemplo preciso pode convencer-nos disto. Enquanto no modêlo do panteão de que nos servimos ao longo dêste artigo a divindade Gou se acha na 5ª classe, na genealogia dos vodun, um outro modêlo, o do panteão do Céu, irá situá-lo na primeira. Assim em vez de 1) Dada Zodji e Nyhwé Ananou, 2 ) SÔ, 3) Agbé Naeté, 4) Agé, 5) Gou, 6) Djo, 7 ) Legbá teremos 1 ) Gou, 2) Agé, 3) Dji, 4) Wêtê-Alawê 5) Loko (mêdje) , 6) Adjakpa, 7) Legbá.
Que o leitor não se apegue demais a êsses nomes em si mesmos, mas constate sòmente as transferências de que são objeto certas divindades (passando-se do modêlo do panteão do céu ao da terra) e ,a relação mantida na hierarquia. Esta tendência é tal que o nome da divindade criadora ou demiurgo conhecerá modificações quando se quer aprofundar a dimensão do original. Uma divindade da qual não se tratou até agora, Nana-Buluku (que possui um templo em Doumé) vem às vêzes "apagar" e suprimir os nomes Mawu-Lissa.
Tudo se passa como se a sociedade quisesse exprimir que não há totalidade cerrada e que há sempre um ser dotado de ao menos uma pequena dose de ciência, mais do que outro. Legbá que não conhece nenhuma restrição e não receia nenhum tabu, se é verdade que não
respeita nenhuma ordem estabelecida, não põe, entretanto, em dúvida a exigência da ordem como tal. Ele a submete apenas às necessidades da mobilidade e da manipulação. Graças a êle toda obra concluída é sempre reiniciada e retrabalhada.
sexta-feira, 1 de março de 2013
AXÉ: A FORÇA SAGRADA
“NO DIA EM QUE UM HOMEM ENGOLIR UMA GALINHA INTEIRA, VIVA, SEM TIRAR AS PENAS, O SANGUE E AS VISCERAS; NO DIA EM QUE UM PARTO NÃO SANGRAR E A ÁGUA NÃO VERTER SOBRE A TERRA, NESTE DIA EU DEIXO DE CORTAR PARA O ORIXÁ.”
O singnificado do sangue
“... o conteúdo mais precioso de um Ilê é o axé. É a força que assegura a existência dinâmica, que permite o acontecer e o devir. sem axé a existência estaria paralisada, desprovida de toda a possibilidade de realização. é o princípio que torna possível o processo vital.”
juana elbein dos santos
sacrifícios_
sacrifício não é assassinato, relacionado que está ligado à rituais sagrados, visando, no batuque, ampliar, acumular e distribuir a força vital e sagrada que é o axé. boa parte das religiões utilizava o sacrifício em seus rituais.
entre os cristãos, por exemplo, a extinção do sacrifício (em termos reais) justifica-se pela morte de jesus cristo; que teria morrido para salvar a humanidade no mais importante sacrifício que o mundo assistiu. ocorre que jesus morreu pelos cristãos, e não pelo africanismo, isso significa, na realidade, que os ritos processados em outra doutrina religiosa não fazem nenhum sentido para nossos orixás; da mesma forma que os rituais de africanos fogem à compreensão da igreja católica.
Em outras palavras, o batuque só se explica pelo batuque, não adiantando recorrer á bíblia para explicar e muito menos para condenar as práticas da religião dos orixás.
o sangue é de importância vital para os orixás, pois está ligado à concepção, à fertilidade, ao nascimento e a todas as etapas da vida. sem sangue não há axé. ninguém nasce sem sangue. quando deixar de haver sacrifícios, o batuque deixará de existir.
Não se derrama do sangue dos animais por maldade, por crueldade, muito menos para fazer mal a alguém. o sacrificíco é a condição para que a vida continue, e não apenas no batuque. todos se alimentam, seja de carne ou de vegetal, e um boi pode ser comido em bifes. ou seja, em partes e depois de morto; uma alface ao ser desconectada de sua raiz, também é morta. então, por que não se pode atribuir um significado religioso a um ato essencial para a sobrevivência humana?
o ritual macrabro não está nos Ilês, e sim nos matadouros, onde os animais são submetidos a inúmeras crueldades e morrem com muito sofrimento. imaginem um animal ainda vivo tendo sua pele totalmente arrancada: isso é um exemplo do que ocorre nos matadouros. é por isso que a carne que será consumida pelo iniciado deve ser sacralizada por meio de rituais específicos; a carne de um animal que morreu com sofrimento não faz bem a ninguém.
é um absurdo acusar o batuque de realizar sacrifícios humanos como tem feito algumas igrejas. o batuque não é uma religião hipócrita e assume o que faz. são sacrificados, sim, bois, bodes, galinhas, patos e muitos outros animais, que depois servem de alimentos à comunidade, mas nunca seres humanos, pois o orixá vive no homem e atravéz do homem.
lembren-se que jesus foi condenado à morte por pessoas que viriam a santificá-lo mais tarde, fazendo o sinal da cruz, adorando sua imagem ensanguentada. pois que fique bem claro: não somos contra o homem jesus, mas contra os homens que mataram jesus. nós não matamos nossos orixás, nós os amamos com todos os seus defeitos e qualidades.
sangue_ as três fontes de axé
para o batuque tudo que a natureza produz é sangue, pois o que define o sangue é a força que detém, ou seja, o axé. o sacrifício requer a utilização de varios tipos de sangue, vindo das mais variadas fontes da natureza, atribuindo vida e sentido ao orixá, aos homens e à própria existência.
sangue vermelho
o sangue divide-se em três categorias: o sangue vermelho, o preto eo branco. Os elementos detentores desse axé são encontrados nos reinos animal, vegetal e mineral, configurando a parte material, visível e palpável da força vital.
o sangue vermelho do reino animal é representado pelo fluxo menstrual, pelo sangue dos animais e pelo sangue humano. portanto todas as pessoas são portadoras de axé. no reino vegetal, o sangue vermelho é representado pelo azeite-de-dendê, o òsún (semente) e o mel extraídos da flor, são os melhores exemplos. os metais como bronze e o cobre são portadores do sangue vermelho proveniente do reino mineral.
o sangue vermelho está mais diretamente relacionado às coisas quentes, ao movimento e ao fogo, razão pela qual os orixás que exigem uma quantidade maior desses elementos, dominam exatamente esse aspecto da natureza, como Bará, xangô e iansã.
sangue preto
no reino animal o sangue preto é encontrado principalmente nas cinzas de animais sacrificados. sendo a cor verde variação da cor preta, assim como o azul, o sumo das folhas, o pó azul chamdo wàji e extraído das árvores, são exemplos de sangue preto no reino vegetal. já o reino mineral, encontramos o carvão e o ferro.
a esses elementos relacionam-se mais diretamente os Orixás da terra, como Ogum, Odé, Otim, Ossanha, Xapanã e muitos outros> Isso não quer dizer que Deuses ligados a outros elementos não os utilizem.
sangue branco
o sêmem, a saliva, o halito, as secreções e o plasma, são considerados os portadores de sangue branco no reino animal. o caracol sacrificado a oxalá é um bom exemplo de animal de sangue branco. no reino vegetal, está o sumo das plantas leitosas, e das bebidas alcoólicas extraídas das palmeiras e de outros vegetais. também está no ìyèrosùn ( pó utilizado pelos sacerdotes no opelê ifá) e no orí ( banha vegetal). no reino mineral temos o sal e o efun ( uma espécie de giz), a prata e o chumbo.
todos esses elementos são portadores de axé e combinados reforçam, ampliam e restabelecem a relação entre os homens e os deuses. o axé é uma força vital que pode ser acumulada e aumentada; e o sacrifício, com a utilização das mais variadas fontes de axé, provenientes de todos os reinos da natureza, é que fortalece o poder do orixá e de todas as casas de nação africana.
fonte: revista orixás
( ano 1,n°5; pg 24/26)
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quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013
O ACAÇÁ
Acaçá
Todos os orixás, de Bará a Oxalá, recebem acaçá. Todas as cerimônias, do ebó mais simples as sacrifícios de animais, levam acaçá. Em rituais de iniciação, de passagens fúnebres e tudo o mais que ocorra em uma casa de nação só acontece com a presença do acaçá. A vida e a morte no Africanismo se processam à partir desta oferenda fundamental, sem a qual nenhum homem seria poupado dos dissabores e percalços do destino. Quando recorremos á história dos orixás, percebemos o grande mal que a humanidade todas as vezes que se afasta do poder divino, representada, nesse caso, pelo poderoso Orun, a morada de todas as divindades, e pelo supremo, senhor do Destino dos Homens. Olodumaré, também conhecido como Olorum (Zambi).
Só existe uma oferenda capaz de restituir o axé e desenvolver a paz e a prosperidade na Terra, ela é justamente o acaçá. Mas o que faz de uma comida aparentemente tão simples a maior das oferendas aos orixás?
Façamos então uma classificação dos elementos que compõem o acaçá para chegarmos à derradeira conclusão. Primeiramente, é preciso esclarecer que a pasta branca à base de farinha de milho (que fica alguns dias de molho e depois passada pelo pilão ou moinho) chama-se na verdade eco (èko).
Depois de coxear, uma porção da pasta ainda quente, é envolvida em um pedaço de folha de bananeira para enrijecer (na África é utilizada outra folha, chamada èpàpo), tornando-se, agora sim, um acaçá. (Hoje em dia nós temos a facilidade de encontrar o milho vermelho moído que é o fubá vermelho e o milho branco que é o fubá branco, mais existem sacerdotes que ainda utilizam o ritual de antigamente).
Percebe-se a fundamental importância da folha de bananeira, uma vez que o eco só passa a ser acaçá quando envolvido em uma folha verde que lhe atribui existência individualizada, pois passa a ser uma porção desprendida da massa, assim como e emi, que dá vida aos seres, é, na verdade, uma parte da atmosfera, ou do próprio Olorum, que todos ser leva dentro de si, o sopro da vida, o ar que respiramos.
Portanto, o acaçá é um corpo, o símbolo de um ser. A única oferenda que restituí a redistribui o axé.
É importante insistir que o que faz do acaçá um corpo único, eminente representação de um ser, é a folha, seu poderoso invólucro verde, que lhe confere individualidade e força vital diante do poderoso orun, os orixás e do grande Deus Oludumaré.
Somente a água é tão importante quanto o acaçá, pois não existem substitutos para nenhum dos dois, que são, elementos indispensáveis em qualquer ritual. Ambos configuram-se como símbolo da vida, e é justamente para afastar a morte do caminho das pessoas, para que o sacrifício não seja o homem, que são oferecidos.
O acaçá remete ao maior significado que a vida pode ter: a própria vida. E por ser o grande elemento apaziguador, que arranca a morte, a doença, a pobreza e outras mazelas do seio da vida, tornou-se a comida e predileção de todos os orixás.
Fato é que quem não faz um bom acaçá não é um bom conhecedor do ritual, pois as regras e diretrizes da religião nunca foram ditadas pela intuição. “Constituem grandes fundamentos cristalizados” ao longo de anos e anos de tradição. Aos incautos vale afirmar que nas nações não é intuição, mas fundamento sim, e fundamentos se aprende.
Fundamento é o segredo compartilhado, o detalhe que faz a diferença e a prova de que ninguém pode enganar o orixá.O acaçá deve permanecer fechado, imaculado até o momento de ser entregue ao orixá. Só então é retirado da folha. É como se o sagrado tivesse de ficar oculto até a hora da oferenda, prova de que o segredo é quase sempre um elemento consagrado.E o segredo do acaçá é enrolar na folha de bananeira, é o que mantém um casa de nação de pé. Não existe acaçá que não seja enrolado na folha de bananeira...
Entretanto, a imprudência vigora em muitos ilês e não raras vezes se ouve falar de novas iguarias apresentadas como acaçá. Os mais comuns são os acaçá de pia e de forma. No primeiro caso a massa de ecó, mais grossa, é colocada às colheradas sobre o mármore das pias, onde os bolinhos esfriam antes de serem utilizados nos ritos. Na segunda receita a massa é espalhada em uma forma e posteriormente cortada em quadradinhos. Este é um procedimento incorreto e condenável, e as pessoas que agem assim então fadadas ao insucesso e não podem ser consideradas pessoas de axé.
Não há culto sem acaçá, nem acaçá sem folha. A religião dos orixás não admite modificações na essência na essência, e esta comida é essencial, portanto, inviolável. Primeiro vem o acaçá antes dele só a vida. Logo, a folha de bananeira guarda uma vida. Deixar a massa do acaçá exposto é o mesmo que deixar a vida vulnerável.
LEGBA II
LEGBA
A MOBILIDADE RELACIONADA A LEGBA
Dos sete filhos de Mawu-Lissa, seis receberam como herança a gestão de um domínio delimitada do universo, do qual os seus pais são os demiurgos ou criadores. Apenas o mais moço ou o irmão mais novo da famíiia divina nada possui. Assim sendo, nesse universo em que cada vodun principal tem um domínio para gerir, Legba se caracterizará pela falta de um domínio.
A estratégia interna da estrutura se define pela relação entre as partes precisas repartidas pelas seis primeiras divindades e a ausência de herança específica no que concerne a Legba Por isso, vodun, aparentemente desprovido, será, em realidade, o personagem mais aquinhoado na medida em que pode deslocar-se livremente de um a outro domínio. Legbá não estando ligado a um domínio determinado, fará de sua pobreza aparente um sinal de real riqueza. Ele representará, sob vários pontos-de-vista, o delicado e dramático papel de intermediário entre os diversos vodun, entre os vodun e os homens, e entre os homens uns com os outros. Fazendo dêle o personagem intermediário por excelência, Mawu Lissa também lhe atribuiu o papel de guardião do conjunto do patrimônio divino.
LEGBA, GUARDIÃO DO PATRIMONIO
Este papel é ambíguo. Legbá faz parte do sistema do panteão Mawu Lissa, menos para conservá-lo que para pô-lo em ação. Desde que êle próprio ficou "fora do jogo" na partilha do patrimônio, denuncia êle a fixidez de um jogo que se desejaria imutável e eterno. E de preferência Fa, o vodun da adivinhação, socialmente representado como a palavra do criador (Mawu-Lissa), que melhor representaria o papel de guardião. Fa, como já dissemos, aplica a ordem exata instaurada por Mawu-Lissa. Se, portanto, a mitologia atribui a função de guardião a Legbá, é, sem dúvida alguma a fim de salientar a exigência da mobilidade e da manipulação, inerentes a toda instauração da ordem e com mais razão, à manutenção dessa ordem determinada. O ensinamento que colhemos dos mitos em que Legba é considerado guardião, apesar da ênfase dada, correlativamente, ao seu caráter vivo, malicioso, livre de qualquer restrição, etc., é o seguinte:
- na concepção do mundo dos daomeanos, o que se conserva estritamente ao nível do espiritual, não é o já consagrado ou, em outros têrmos, a letra morta; é o espírito de relação, sem a fixidez dos elementos concernentes. Nessa ordem de pensamentos, Legbá
é um bom guardião.
continua...........
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